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*Matheus Mason

Nesta semana completamos quatro meses da eclosão da pandemia de Covid-19, a mais grave crise sanitária e de saúde que o mundo viveu desde a Gripe Espanhola, há 100 anos. O novo coronavírus, até o dia 20 de julho, já havia contaminado mais de 14,5 milhões de pessoas e ceifando a vida de mais de 606 mil pessoas – sendo 2 milhões de infectados e 79 mil mortos no Brasil.

Juntamente com esta crise, estamos convivendo com outra: a econômica, que atinge indiscriminadamente trabalhadores, famílias e empresas. Mais de 600 mil empresas já fecharam definitivamente e mais de 2 milhões de empregos eliminados em quatro meses. Números estes que também tendem a aumentar, especialmente em setores economicamente mais vulneráveis e sofrendo mais longas restrições.

No caso do setor de Alimentação Fora do Lar – bares e restaurantes, botecos, padarias, composto em sua grande maioria por micro e pequenos negócios, abertos por famílias, pessoas que perderam o emprego e viram no setor uma possibilidade de sustento e por milhões de informais – a conta vai ainda mais longe.

O Plano São Paulo, desenvolvido na melhor intenção para preservar a vida e controlar a pandemia, define restrições conceitualmente incorretas, desalinhadas da realidade econômica dos negócios, sem levar em consideração a prática e segurança sanitária que rege o setor de alimentação.

A regra atual, que permite a abertura concentrada em seis horas e limitada até as 17h, tem causado efeito contrário ao desejado ao concentrar a volta de milhares de trabalhadores em um curto espaço de tempo e, desta forma, incentivar aglomerações e promover a disseminação do coronavírus, piorando a crise sanitária.

O setor de bares e restaurantes apresenta características muito específicas quanto ao perfil de consumo da população – do café da manhã ao jantar -, impactando o modelo de negócios do setor, com negócios especializados no consumo noturno, como pizzarias e bares e botecos, que juntos representam 21% dos estabelecimentos no Brasil.

Em pesquisa realizada em 2015 pela Toledo Consultoria, com 3.496 estabelecimentos, constatou-se que o consumo no período noturno representa 51% das vendas nos dias da semana e nos finais de semana este valor representa 50% do consumo. No interior do estado o perfil de consumo se intensifica para 54% nos períodos vespertinos e noturnos, conforme pesquisa realizada em julho de 2020 pela Abrasel na Região Metropolitana de Campinas.

Quando analisamos conjuntamente o perfil de consumo com as restrições de horário, capacidade e distanciamento de mesas e cadeiras, vemos que Plano São Paulo é excessivamente punitivo ao setor, criando um teto limite de vendas de apenas 27% de sua capacidade instalada.

Há mais de 120 dias com restrição de venda para consumo no local, os estabelecimentos se reinventaram e recorreram ao delivery e take away. Porém, as receitas geradas por estes canais de vendas representam, em média, apenas15% do faturamento antes da pandemia.

A restrição de horário proibindo o atendimento do final da tarde em diante será o golpe de misericórdia para os bares e restaurantes, mais do que dobrando os prejuízos mensais. Quando os estabelecimentos reabrirem, diversas despesas que estavam sendo postergadas e reduzidas, como despesas com funcionários e encargos, aluguéis, energia, água e gás, entre outras, irão voltar fortemente, criando um passivo que muitos não conseguirão absorver, dizimando milhões de empregos e empresas.

O impacto no fluxo de caixa de um restaurante tradicional com almoço executivo e atendimento a la carte no jantar e aos finais de semana é devastador. Pelas estimativas mais otimistas, o setor voltaria a ter de 70% a 80% das receitas somente em dezembro de 2020 e a recuperação dos prejuízos somente no final de 2021, quando os estabelecimentos sairiam do vermelho.

Além da questão econômica, esta crise vai deixar um legado de destruição no mercado de trabalho. No Brasil, o setor de Alimentação Fora do Lar fechou cerca de 1 milhão de postos de trabalho, impactando diretamente a renda familiar de mais de 4 milhões de pessoas, sem contarmos o impacto nos postos indiretos, como prestadores de serviços, músicos, pequenos fornecedores, proprietários de imóveis desocupados, dentre tantas outras pessoas que dependem do setor para sobreviver.

Por tudo isso, é preciso pensar em uma reabertura com melhores critérios, que possibilite pelo menos o equilíbrio econômico-financeiro dos negócios e que seja viável para a continuidade das empresas e dos postos de trabalhos, pois se a conta não fechar, a situação vai ser ainda muito pior.

Matheus Mason é empresário no setor, proprietário de 02 restaurantes e presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes da Região Metropolitana de Campinas (Abrasel RMC)

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